Videogame é coisa de menino. *

Quando era pequena minha prima mais velha tinha um Master System. Adorava jogar Mortal Kombat nele. Minha prima cresceu e não tinha mais tempo para o videogame e me deu. Mesmo sem ter muitos cartuchos, sempre que podia passava horas jogando. Às vezes com meu vizinho e o irmão dele, às vezes com minha irmã, ou até sozinha mesmo. A correria do dia-a-dia me fez não ter mais tempo para o videogame e ele foi ficando de lado. Já com meus vinte e tantos anos me surgiu tempo de voltar ao mundo dos jogos (dessa vez online) e eu aprendi uma coisa que não me ensinaram quando era criança: videogames são coisa de menino, e não de meninas.

Um amigo de faculdade havia me falado de um jogo chamado World of Warcraft. Eu havia acabado de sair da correria de fazer duas faculdades, estava fazendo apenas uma e trabalhava poucas horas por semana e decidi experimentar o jogo. Nunca havia jogado nada como aquilo. Saí de um Master System da década de 90 para um MMORPG. Fui aprendendo aos poucos, encontrei uma guilda pequena com um pessoal muito legal, que dentro do que podia ajudava a esta maga que vos fala, e seu amigo Hunter a aprender um pouco mais sobre o jogo.

Mas fora da minha guilda a coisa não era bem assim. Quando entrava em algum grupo de raid ou coisa do tipo e descobriam que eu era mulher, recebia diversos wisps pedindo nudes, ou para eu ligar a webcam, ou apenas escutava piadas de que mulher não sabe jogar. Ao entrar em conversas de voz grupais (TS, RC, etc..) sempre tinha que lidar com diversos caras dando em cima de mim, às vezes de maneira ofensiva, pelo simples fato de eu ser mulher. Já chegou ao cúmulo de ser tratada por “fêmea” por um cara que estava fazendo uma live no RC da minha guilda (fazendo live enquanto dava em cima de mim de maneira grosseira e me chamando de fêmea, enquanto me prometia mil presentes).

Já perdi a conta de quantas vezes aparecerem solicitações de amizade para mim no jogo ou no meu Facebook de homens que pegaram meu contato com amigos e me adicionaram por eu ser mulher, esperando que eu lhes oferecesse algo em troca. Cansei também de ver homens fazendo piada com mulheres que jogam nos fóruns, ou em grupos de Whatsapp e Facebook, insinuando que o lugar delas não é ali.

Existem mulheres que se aproveitam da forma como são tratadas (como objetos) para conseguir algumas vantagens nos jogos? Sim. Mas são a minoria. A grande maioria das mulheres que joga só quer uma coisa: Respeito! Se tratada como uma pessoa normal, e não como um pedaço de carne em meio a hienas que não sabem se comportar. Achar que uma mulher se faz de vítima ao reclamar da forma como é tratada só mostra que você faz parte do problema também.

Muitas meninas tentam ser mais respeitadas enquanto jogadoras e fugir do assédio indesejado evitando entrar em conversas de voz, mudando o nick (e as vezes até o personagem) para algo masculino, ou aprendendo a escrever de maneira mais masculina. É muito triste se sentir impedida se ser você mesma para poder ser tratada como uma pessoa normal.


Jogos não são apenas para meninos, são para meninas também. Não vamos sair desse universo, e é preciso que vocês comecem a nos respeitar. Talvez no dia em que os homens forem tratados “como mulheres” dentro do jogo, eles passem a entender o quanto é difícil ser mulher no mundo gamer.

* Escrevi este texto para o NerdWeek

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Trabalhe para viver, viva para trabalhar.

Quando eu era pequena achava que fazer faculdade era a única coisa que eu precisava para ter um bom trabalho e um bom salário. Achava que rico eram apenas aquelas pessoas que nasciam ricas ou que ganhavam na loteria, e nunca tinha imaginado de ver um rico trabalhar. Então, pra mim, apenas ter um curso superior me bastaria pra ter a vida que gostaria.
Minha mãe era uma das poucas pessoas com faculdade que eu conhecia, juntamente com minha pediatra e meu tio mais novo. Minha mãe não trabalhava nem o dia todo, e nem todos os dias. Achava aquilo perfeito pra mim.
Cresci mais um pouco e minhas tias e meu pai fizeram faculdade também, a vida e o poder econômico de todos aumentou um pouco e continuei achando que apenas isso bastava mesmo.
Então minha mãe fez a pós-graduação dela, e eu passei a pensar que fazendo uma pós minha vida melhoraria mais ainda. Então meus planos para quando acabasse a escola seriam fazer logo uma faculdade e emendar com uma pós.
Minha primeira faculdade não mudou muito meu panorama de visão para o futuro. Foi ao começar a segunda faculdade e ao começar a trabalhar também que percebi que as coisas não eram bem como eu via. Eu tinha uma faculdade e um emprego. Justamente um do tipo que eu queria: não trabalhava todos os dias nem o dia todo, mas ganhava mal. Muito mal. E foi aí que vi que uma pós ajudaria apenas um pouco nessa situação. Que se realmente quisesse ganhar mais teria de fazer mestrado e Doutorado e mudar de emprego.
No fim acabei vendo que não existe outro meio. A menos que você nasça rico, ou você se mata de trabalhar e estudar para viver, ou você vive pra trabalhar e estudar, tentando aproveitar um pouco a vida quando assim lhe for permitido.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

O país depois de domingo.

As eleições passaram. Eu militei, defendi minha causa, e combati as lutas que achei necessárias. Quase morri de ansiedade esperando a liberação da apuração dos votos para presidente, e de desgosto com o resultado para governador. Comemorei o resultado da presidência. Fiquei realmente feliz e aliviada, e me permiti comemorações. Mas quando paro para pensar nisso tudo e o depois sinto um vazio.
Esse vazio eu acho que vem de tudo o que vem acontecendo. Tem muita coisa para se mudar no governo sim, mas cada vez mais tem coisas para se mudar nas pessoas. Tão fechadas. Tão cheias de si. Tão cegas, seja pelo ódio, seja por não quererem aceitar outros pontos de vista. Isso vai acabar trazendo problemas muito em breve.
Eu prefiro tentar ignorar isso, mas esse incômodo continua, e eu não sei o que fazer. Não sei como ajudar aos outros, nem como me ajudar. Fica difícil fazer algo por quem não quer ajuda. Então com o proceder com o rumo que a atual sociedade toma? Deixar explodir a Terceira Guerra Mundial, ou tentar fazer crescer os caminhos da paz, por mais que eu acabe falando ao vento?
Está difícil de saber.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Petralha, com muito orgulho, e peço apenas seu respeito.

Publiquei isso no meu facebook, mas achei relevante publicar aqui também:

Ao longo da semana vi mais de um amigo de Facebook (ou amigo mesmo) desabafando sobre a "perseguição" que sofre por votar e defender seu voto em Dilma. Decidi fazer o mesmo pois isto já é algo que me incomoda há muito tempo. Quem me conhece de outros tempo sabe como sou com política, em especial nas eleições quando acredito em um candidato, e nunca tive grandes problemas como venho tendo este ano. Não que não houvessem desavenças, mas este ano a postura de ódio ou de incômodo por minhas palavras por parte de alguns excedeu os limites. Já fui ridicularizada e minimizada, e até hostilizada mais de uma vez, tanto por colegas de trabalho, quanto por amigos.
Hoje vi um amigo reclamando sobre a postura de seus alunos com eles, e nisso, por sorte minha, não tenho do que me preocupar, pois quando falo sobre política ou justifico o motivo do meu voto para meus alunos é um dos raros momentos que eles fazem silêncio e se interessam no que falo (coisa que não fazem nem na chamada, muito menos quando estou tentando explicar a matéria). Na contramão, alguns colegas de trabalho e amigos não levam o que falo em consideração, ou pior, nem respeitam minha opinião e ideologia, me respondendo as vezes de maneira muito agressiva. Alguns amigos em redes sociais reagem a isso de maneira menos agressiva, preferindo parar de seguir minhas atualizações para ignorar o que digo ou penso. Apesar de me chatear um pouco, é "compreensível". O que realmente é difícil de entender são pessoas que chegam de maneira grosseira ou rude, respondendo a mim e a minhas preferências políticas de maneira agressiva, desnecessária. 
É difícil de entender, sobretudo quando são pessoas mais próximas a você do que meros colegas de trabalho. Eu discordo de quem tem uma opinião divergente e apoia o Aécio, e por várias vezes já discuti na internet ou pessoalmente, mas sempre mantendo o limite da civilidade, e buscando entender que para além da política eu tenho uma vivência com a pessoa, e isso que é o mais importante. Até mesmo com os que são meros amigos de internet, pouco conhecidos, tento respeitar, preferindo parar de responder a discussão se percebo que são sairá boa coisa dali. As pessoas tomaram raiva da política que veem pela TV, e querem descontar esta raiva em qualquer um que seja politizado ou se interesse por isso, sobretudo se esta pessoa for pró Dilma ou petista.
Meus colegas de trabalho eu também não entendo. Passam o ano reclamando de baixos salários, da meritocracia e da desvalorização, e apoiam um candidato como Aécio, que provou que é justamente o que lutamos contra. E não adianta saber que não sabiam. Lembro de uma greve do Rio que coincidiu com uma de Minas, e me lembro de como todos odiavam o governador Aécio até aqui no Rio, e de como ele havia sido péssimo para a educação de lá, e de como os professores de lá perderam feio a greve. Mas esses meus colegas que defendem esse candidato tem memória curta e seletiva, e se lembram apenas do lado ""bom"" que a mídia mostra dele.
É difícil, e as vezes dá vontade de desistir de tudo o que acredito e levar uma vida miserável sem meus ideais. mas ainda não chegou esse dia. Então, se você não gosta que falem de política, não gosta de petistas, não gosta de esquerdistas, e não quer nada disso em sua timeline, desfaça sua amizade comigo no Facebook, e quando estivermos juntos, não converse de política comigo. Sou esquerdista, sou simpatizante do PT, sou professora, e sigo na luta enquanto puder.

Eu escolhi petralhar por um modelo de país que acho que está dando certo.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Blablablas e mimimis

Eu comecei a me interessar por política desde cedo. Minha mãe nunca foi o tipo de mulher de gostar de ficar vendo programa de dona de casa, ou novelas. As conversas dela dentro de casa sempre foram politizadas, e eu cresci acostumada com isso. Com o tempo descobri que não era assim em todas as casas, e que as pessoas preferiam ver programas de comédia vulgar e barata, ou novelas, a perder meia hora que fosse ouvindo o telejornal ou lendo um jornal. Quando criança eu escutava meus pais conversando, e as vezes reproduzia isso em meu cotidiano, com coleguinhas, brincadeiras ou desenhos (Lembro-me de um que era o FHC com um nariz de Pinóquio nadando em muito dinheiro, rs). Na minha adolescência mantive a postura, e, principalmente em época de eleição, conversava muito sobre isso, e militava para os candidatos que meus pais votariam, defendendo com unhas e dentes. No Ensino Médio, estudando Sociologia e Filosofia descobri que minhas ideias políticas eram de esquerda, e gostei disso. Achei uma coisa bem certa, afinal visa ajudar mais a quem tem menos, e ajudar menos a quem tem mais, algo que eu já tinha visto na Igreja, e que me foi ensinado que era o certo. Aprendi sobre esquerda e direita, modelos políticos, ideologias, e pude moldar um pouco mais meu pensamento, que foi se definindo cada vez mais, sobretudo com a universidade, onde podia, enfim, discutir com outras pessoas sobre isso livremente e militar a favor de minhas causas.
Depois que saí do âmbito universitário, me lembrei do que sabia quando criança e esqueci: as pessoas não se informam sobre política. Passeia viver em outros círculos, ter outros amigos, conviver com outras pessoas. Mas nunca é uma vivência completa pois, normalmente não me interesso muito por humor barato, ou novela, ou futebol, ou sair por aí me embebedando e pegando qualquer um. E da mesma forma, meus amigos e afins não se interessam por política e outros assunto que me interessam. Não se interessar é até gentil, alguns tem verdadeiro asco da temática. Não sou bem vinda  ou vista quando toco no assunto. Hoje, inclusive, fui ofendida por isso.
Sei que as vezes exagero, sobretudo quando o assunto é defender meu candidato, mas eu não consigo entender como as pessoas podem não ter um mínio de interesse por algo que influencia a vida deles diretamente. Deixam ao Deus dará e depois reclamam de como a coisa está. Como você pode reclamar de algo que você não dá a mínima? Eu ão entende, e não falo muito quando estou perto de pessoas que eu gosto, pois eu tenho que escolher manter as amizades e algo de paciência comigo, ou falar o que penso, o que eu acredito.
É chato ser a chata do grupo, mas é isso que eu sou.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014