Mais uma Quarta-feira...



Mais uma quarta-feira, mais um dia rotineiro, um dia de chuva e sem nem uma graça em especial. Eu em meu trajeto matinal Austin - Queimados como sempre, desligada da vida por estar acostumada a essa rotina. Eis que no trajeto de volta, ao entrar no trem (de ar condicionado, diga-se de passagem), uma menininha sozinha senta ao meu lado. Ela não devia ter mais que 8 anos e estava sozinha (sim, uma menina de 8 anos sozinha no trem as 10 e 45 da manhã!) e aparentava sua baixa renda com seus cabelinhos crespos escondidos no capuz de seu velho casaquinho. Em suas mãos uma caixa velha de sapatos envolta por muitas sacolas plásticas de mercado e um encarte de classificados automobilísticos do jornal Meia Hora que ela encontrou pela estação do trem.

Durante os primeiros 2 minutos da viajem (que leva 5 minutos até Austin) ela nada disse. Eu a observava. Ela estava entretida olhando as fotos de carros. De repente ela cutuca o meu braço, como se eu fosse uma pessoa conhecida, e pergunta “você não tem uma caneta aí, não?”. Não esperava a pergunta vinda dela com tanta intimidade comigo (uma pessoa que ela nunca viu na vida!). Respondi que não, realmente não tinha uma caneta na mochila, mas se a tivesse eu daria a ela (me simpatizei por ela). Depois disso me calei e pensei o que faria ela ali sozinha, onde estariam seus pais, por que ela não estava na escola...

Um pouco depois ela me perguntou sobre o preço dos carros e passamos a falar disso... Comparando os carros e seus preços como se fossemos comprar-los. A estação de Austin chegou e me despedi dela com um simples ‘To indo, tchau!’. Ela nada disse, continuava entretida com os carros do jornal.

Pareceu-me injusto demais aquela criança ali, ao meu lado, naquela composição com destino ao terminal Central do Brasil. Aquela caixa, no seu colo agora, me intrigava. Será que ela estava ali para vender algo? Quem anda de trem sabe que se encontra de tudo pra se comprar ali, e com as mais variadas pessoas, de cegos a crianças de 8 anos de idade (ou menos!). Se ela estava ali para vender algo, realmente a situação de sua família é péssima. Isso não se faz com uma criança! E nessas horas me pergunto onde está o Estado e suas políticas para geração de empregos e qualidade de vida? Cadê o Bolsa Miséria, digo Família, que tem por uma de suas finalidades manter a criança na escola para que ela não precise trabalhar pra sustentar sua família? Cadê o conselho tutelar que deveria proteger essa criança? E o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA!!!) que dá muitos direitos e protege excessivamente as crianças erradas?

No que depender deles nada, NADA mesmo vai mudar. Mais vale mais criancinhas ‘pobrinhas’ com ‘familinhas pobrinhas’, para que no ano da eleição o candidato distribua cestas básicas em seus centros sociais (que só funcionam no período eleitoral) e prometa que a situação vai mudar, pois com ele será diferente, do que investir realmente em políticas públicas que possam tentar melhorar a situação da população.

Investir na população é perigoso, com boas escolas, empregos e situações dignas de vida o povo vai poder pensar. Povo que pensa, povo que questiona. Que governante quer ser questionado por seu povo? Enquanto o povo usar uma viseira (igual aquelas que o carroceiro coloca no cavalo para que olhe apenas pra onde o carroceiro quer) está tudo certo! Pode-se desviar verbas, maquiar problemas, comprar votos... continuar levando as coisas no quem mais tem mais pode, e quem não pode aceitar a vida que tem e ir feliz comer por R$ 1 e assistir o Faustão depois do jogo do Mengão. O 'pão e circo' ainda está aí... Nunca deixou de estar! Assim a vida vai... Até quando menininhas de 8 anos terão que trabalhar para a subsistência de suas famílias?

quarta-feira, 30 de abril de 2008