Tempos Modernos

Há mais ou menos um ano e três meses fiz meu primeiro poste neste blog falando sobre uma menininha que encontrei no trem e que mexeu um pouco comigo. Esses dias um menininho, numa estação de trem, se divertia vendo as pessoas passando pela catraca com o cartão da passagem. Ele olhava aquilo como se fosse mágica para ele, embora ninguém ali prestasse atenção nele, o que não impedia sua felicidade. No mesmo dia encontrei no tem um rapaz (não sei se maluco, drogado, ou os dois) que falava com todos a sua volta, inclusive eu, sobre as barbaridades da sociedade que nos cerca, mais uma vez sem receber muita atenção.
Um amigo estava a comentar comigo que vivemos num mundo onde o contato com pessoas estranhas nos assusta. Pessoas estranhas são uma fonte de perigo, quanto mais longe delas melhor, quanto mais isolados melhor... Será? Não sei, mas talvez muito tenha de verdade nisso, e certamente muito se perde com isso também. A gente vai vivendo, e vivendo em redomas criadas por nós mesmos. Deixamos uns poucos se aproximarem, poucos estes que mais a frente serão selecionados entre os que continuaram perto de nós e os que serão esquecido com o passar dos anos.
Não se para mais na rua e puxa-se assunto com alguém. Aliás isso é algo muito difícil hoje, e quando ocorre sempre há desconfiança e medo por um dos dois lados. Esses dias estava a ler na calçada de casa quando um velhinho parou e puxou assunto comigo. Moro numa rua tranqüila, e é um bom passa-tempo para dos dias frios ler ao sol na calçada de casa. Lia o Pequeno Príncipe, livro que trouxe o velhinho a falar comigo. Falou sobre o autor, sobre a historia, sobre os vários livros que possuía, e inclusive chegou a me oferecer alguns, pois ele já não tinha mais família. Apesar da simpatia do senhor, apenas acenava com a cabeça e o respondia com frases de no máximo cinco palavras. Não nego que ele me assustou e a alguns vizinhos, que observavam a conversa de longe preocupados com aquele senhor parado em frente de minha casa, mas vivemos num tempo em que desconfiamos até da sombra.
É estranho viver num mundo onde se é preciso ter medo de tudo e todos para se assegurar a própria existência. Não há mais calor humano nas relações com os outros. As vezes somos tão distantes a ponto de nem mesmo conhecermos nossos próprios vizinhos (admito, passo tanto tempo fora de casa que já não conheço mais do que cinco vizinhos numa rua onde antes todos eu conhecia).
O distanciamento é cada vez maior, sempre. Não se perde mais tempo, como diz a Raposa do Pequeno Príncipe, cativando a ninguém. Espera-se apenas encontrar nas pessoas amigos prontos, pois criar amigos dá muito trabalho. Cativar é um trabalho duro, e requer dedicação e tempo, coisas que ninguém mais quer desperdiçar com os outros. E nisso as relações prosseguem cada vez mais frias, distantes, e cada vez menos sólidas. Vai ver esse é o nosso destino, se isolar cada vez mais, mantendo apenas o contato estritamente necessário, e vivendo apenas para si... E por si.

quarta-feira, 15 de julho de 2009